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Mulholland Drive

por JBM, Segunda-feira, 05.01.04
Escrito e Realizado por David Lynch
Com Justin Theroux, Naomi Watts, Laura Elena Harring e Ann Miller entre outros


Ora bem, ora bem... Por onde começar... É que não faço a minima ideia! Eu quando aconselho a alguem este filme (o que faço com muita frequencia), e me preguntam do que se trata, eu limito-me a dizer : Vejam-no... e depois digam-me voces! É que é practicamente impossivel explicar este filme. Eu tenho a minha explicação, mas ao dize-la já estragaria a magia.
Eu li isto algures, e é uma das melhores maneiras de apresentar este filme: Imaginem este filme como um cubo de Rubik mental. Ao contrario da maioria dos filmes, vê-lo, é apenas o começo do mistério, depois há que combinar as cores, ou seja, as pequenas pistas que nos são dadas por Lynch durante todo o filme.
Para vos dar um começo de historia, aqui vai:
Uma mulher chamada Rita (assim o cre ela), envolve-se num acidente de automovel em Mulholland Dr. Fica amnésica e vai parar a casa de Betty, uma rapariga com ambições de estrela, que chegou recentemente a Hollywood, a cidade de todos os sonhos.
A este filme, há quem o adore por não ter sentido, há quem o adore por aparentemente ter sentido, há quem o adore por ser polémico... Deixo ao vosso critério.



No ouvido:

Cowboy: Now, you will see me one more time if you do good. You'll see me two more times if you do bad. Goodnight.

Betty Elms: [depois de beijar Rita] Have you ever done this before?
Rita: I don't know. Have you?
Betty Elms: I want to with you.

Luigi Castigliane: This is the girl!
Adam Kesher: Hey, that girl is not in my film!
Vincenzo Castiliane: It's no longer your film.

Cowboy: A man's attitude... a man's attitude goes some ways toward how a man's life will be. Is that somethin' you agree with?
Adam Kesher: Sure.
Cowboy: Now... did you answer cause you thought that's what I wanted to hear or did you think about what I said and answer cause you truly believe that to be right?

Bondar: No hay banda! There is no band. It is all an illusion...

Betty: Mulholland Drive?
Rita: That's where I was going!



Como extra vou tentar algo que não vos prometo conseguir... aqui fica a :

MULHOLLAND DRIVE - A Solução

Em primeiro lugar, a grande maioria desta historia é um sonho!! Por isso, para interpretar o filme, pensem nos vossos sonhos... pensem nas personagens que por vezes neles aparecem, e de onde as viram... recordem-se que não é preciso termos interagido com alguem, para esse alguem aparecer nos nossos sonhos, por vezes basta que nos tenha chamado a atenção. E como são os vossos sonhos quando estão doentes?? E a forma como mudam os nomes das pessoas nos sonhos?? E o espaço e o tempo??
Dada esta pequena introdução, passemos ao que interessa:

Diane Selwyn (Naomi Watts) recebe uma herança deixada pela sua tia Ruth (Maya Bond), e decide viajar para Hollywood, com o sonho de se tornar uma actiz de sucesso. Ela chega mesmo a fazer um casting para o papel principal de um filme, mas não consegue... o papel vai para Camilla Rhodes (Laura Harring), que se viria a tornar na amante de Diane, que por vezes lhe arranja uns papeis secundarios em alguns filmes.
São mesmo Camilla e Diane que protagonizam as cenas mais escaldantes do filme.
O problema surge, quando Camilla se apaixona pelo realizador do seu proximo filme, Adam Kesher (Justin Theroux). A partir dai a relação entre Camilla e Diane começa a deteriorar-se, as discussões sucedem-se, até que Camilla convida Diane á festa onde ela irá anunciar o casamento com o realizador.
Diane furiosa e humilhada resolve contratar um assassino a soldo, para matar Camilla, e paga-lhe 50 000 dólares pelo trabalho. O assassino diz-lhe que quando o trabalho estiver feito, ela irá receber uma chave azul no apartamento (esta chave, não serve para abrir nada... É só uma forma de ele dizer que já está feito).
Nessa noite Diane vai dormir... Agora imaginem-se com os nervos que estaria Diane antes de adormecer, sabendo que nesse dia tinha ordenado um crime?? Diane acorda, vê a chave azul...
A partir daí, policias começam a investigar o crime... e Diane, com medo de ser presa, mata-se.


Esta é a parte real do filme...

Agora... que o sonho comece:

Reparem no inicio do filme: A camera mergulha para a almofada... querem uma prova mais evidente em como isto é um sonho?

Agora reparem na caracterização das personagens do sonho: Betty, a inocente protagonista, Rita, a femme fatal misteriosa, os policias irónicos e cheios de estilo, como num bom filme noir, os tons cinzentos que rodeiam tudo... tudo respira a filme noir... Diane representasse na personagem que ela gostaria de ser, a talentosa e bela actriz, que reina num mundo que transborda de corrupção. Já á sua amante Diane representa-a como a mulher fatal, bela, possivelmente mortal, mas no entanto fragilizada, sem memória e que necessita da sua ajuda. E que melhor momento para Diane se vingar do realizador, que no seu mundo? Pois Adam será completamente ridicularizado e humilhado... aquilo que ela gostaria que lhe acontecesse na vida real, é o que lhe acontecerá no mundo não-real.
Agora chegou a parte de pensarem nos vossos sonhos... da forma como e porque aparecem as personagens nos vossos sonhos. Os sonhos estão longe de ser aquele mundo distorcido e lento que nos persegue, como muitas vezes é caracterizado nos filmes.

Pois aqui acontece exactamente o mesmo... Vou então tentar explicar algumas cenas... mas recordem-se que tudo não passa de um sonho:
Rita leva na sua mala uma data de dinheiro, 50 000 dolares exactamente, e tambem uma chave... azul( que não é igual á chave que lhe será entregue pelo assassino, mas sim como imagina que será a chave). Rita é Camilla, e leva na mala aquilo que simboliza a sua morte. Rita no sonho safa-se de ser morta... Diane no fundo ainda a quer viva.


No sonho o cowboy é um lider mafioso... esta parte creio que é apenas a imaginação da Diane a vir ao de cima. Na festa ela realmente viu aquele cowboy, que logicamente lhe chamou a atenção... por isso vai sonhar com ele. Quem não sonharia? Aquele cowboy mete medo!

Nessa mesma festa, Diane vê de relance um tipo a beber café, essa imagem ficou-lhe retida no inconsciente, por isso irá fazer dele um mafioso, com um estranho gosto para o café.

No sonho há uma Diane Selwyn, logicamente a companheira de quarto de Rita (a relação real), que aparece morta. Pois, a verdadeira Diane já pensa em matar-se

No sonho a empregada de mesa do bar, onde ela contratou o assassino chama-se de Diane, na realidade chamava-se Betty. Nos sonhos, os nomes costumam-se baralhar, foi o que aconteceu (esse nome provavelmente ficou-lhe retido, devido á pressão do momento... ela estava a contratar um assassino).

No sonho tambem há uma Camilla Rhodes, a causa dos problemas que Adam tem com a máfia... de facto no sonho, todos os problemas que Adam tem são causados por Camila... E na vida real, é por causa da Camila que Diane humilha o Adam no sonho. Se repararem, a Camilla do sonho, é a rapariga que beijou a verdadeira Camilla na festa...

No sonho o assassino é um trapalhão... pois isso é um dos medos que Diane tem, que ele seja um incompetente. O livro preto? não é mais do que a livro que estava á sua frente na mesa, quando o contratou.

O realizador que no sonho, faz um casting a Betty, é o mesmo que a rejeitou no mundo real... só que agora adora-a

A Coco, no sonho, é a mãe de Adam na vida real.

O homem que tem medo do mendigo é apenas um tipo que estava no bar, no momento em que Diane falava com o assassino.

Muito bem... Vou-me ficar por aqui. Sim, eu sei... isto não é bem a solução... É mais uma introdução ao mundo de Mulholland Drive. Há tanto ainda para responder, como por exemplo, quem são, e porque tem Diane medo, dos velhos que saiem do saco, quem é a vizinha de Diane... e a minha cena favorita : o Clube Silencio!
Como veem, há muito ainda para descobrir... alguem me consegue explicar o significado do Clube Silencio??



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20 comentários

De Anónimo a 10.02.2005 às 04:12

Todas as interpretações que encontrei de Mulholland Drive (MD) consistem aproximadamente no seguinte: os primeiros 2/3 do filme são o sonho de Betty, alter-ego de Diane moribunda fisica e/ou psicologicamente; o último terço é a Realidade das vidas de Diane e Camilla. Concordo basicamente com a divisão mas não com a interpretação da primeira parte. É preciso ter presente o universo lynchiano: metafórico, onírico, alucinatório, barroco, católico, emocional, povoado de anjos e demónios mais ou menos inconscientes, internos e manipulativos, perversões, culpas, recalcamentos, purgatórios e redenções.
Em MD, David Lynch usa, entre muitas outras, 2 "peças" metafóricas: a chave e o cubo, ambos azuis (o azul tem também significado metafórico e emocional ao longo de todo o filme, tal como a sua restante palete de cores): as chaves azuis "são" a MORTE (a morte física no caso da chave real que o assassino contratado usa como sinal; a morte potencial, metafórica ou real, no caso da chave azul estilizada que Camilla acha na mala; esta "morte" pode também ser entendida como a "key" para mudar radicalmente de... Vida, talvez no sentido de mudança fundamental que a carta da Morte encerra no Tarot. Quanto ao cubo, ele tem dois óbvios estados possíveis: fechado é o MISTÉRIO (o profundo mistério do significado da vida, o insondável, o incompreensível); aberto é a REVELAÇÃO. A associação é também óbvia: só a chave da MORTE permite a REVELAÇÃO do MISTÉRIO...
Interpretar a primeira parte do filme como um sonho de Diane é dar a esta personagem todo o protagonismo. Camilla ficaria resumida a uma imagem de Diane e todo o filme seria basicamente a história de Diane. Ora em toda a aura de marketing que rodeia o filme bem como no que resulta do seu visionamento linear, transparece a história de duas mulheres, duas faces da mesma moeda, a loura e a morena, siamesas na obscuridade do enredo. Assim e equilibrando a equação, proponho a seguinte interpretação:
Destroçada, transtornada e em desespero total, Diane compra o assassinato da sua amada Camilla. O mecanismo demoníaco da morte é accionado através dos seus executores físicos, psicológicos, mentais e surreais (não cabe aqui essa análise). A limo preta desliza de facto, na realidade!, ao longo da tortuosa e sinistra e perigosa estrada das colinas sobranceiras a Hollywood, donde se avista a espaços o Valley (a gigantesca planície de malha urbana e suburbana a que se pode vagamente chamar LA). Esta estrada é de facto perigosa e os acidentes acontecem. O eminente assassinato de Camilla fracassa subita e inesperadamente devido ao tremendo embate do carro de adolescentes em corrida delirante. Ferida, transtornada e em choque, Camilla desce pelos arbustos da encosta e refugia-se numa casa que (aparentemente) a única residente está a abandonar durante algum tempo, como se fosse de viagem. Amnésica e traumatizada em todos os sentidos, Camilla adormece ou alucina. A HISTÓRIA QUE SE SEGUE PODE MUITO BEM SER O SONHO/ALUCINAÇÃO de Camilla. É algo especulativo a partir daqui e até à parte "real" do filme, discernir o que é alucinação e sonho do que é realidade no percurso de Camilla e das outras linhas narrativas que estão em movimento: o realizador, o assassino, etc. Todos os argumentos sobre o enredo de estranhos personagens no suposto sonho à beira do fim de Diane são igualmente válidos para Camilla. Elas eram amantes e colegas, partilharam as vidas, os passados, as histórias, logo as personagens cabem perfeitamnete na alucinação de Camilla. Mas e Betty/Diane? Como se ajusta ela aqui? Na perfeição. Betty é um anjo lynchiano típico, o anjo perfeito da amnésica Rita (Camilla sem identidade). Betty é linda de mais, amiga de mais, amante de mais, maternal de mais para ser outra coisa que não um anjo na lenta recuperação de Camilla. É com o seu anjo da guarda que Camilla vai viver e falar, ser apoiada e receber a energia e iniciativa que não tem. Não é perfeito que a idealização angélica de Camilla seja precisamente a Diane que existe nas profundezas da sua memória, a amante que a amou acima de todas as coisas, a Diane ainda pura e "canadiana" do início do seu relacionamento? Não é perfeito que Camilla "crie" o anjo que a protege da culpa de ter mais ou menos voluntariamente destroçado a sua amada Diane através dos seus outros amores que só conhecemos na parte final? Não é perfeito que assim sendo não haja uma dicotomia entre duas entidades físicas Betty/Rita mas sim uma unidade: Camilla amnésica e seu anjo da guarda Betty são/estão na mesma pessoa.
Esta interpretação permite "dar realidade" a muitos mais acontecimentos, ou, pelo menos, a deixar ao critério pessoal essa assumpção: a rede assassina anda de facto preocupada com o desaparecimento da marcada para matar; é para o telefone de Diane que é passada palavra de que a rapariga está desaparecida, mas ninguém atende pois Diane já se suicidou pensando que Camilla morreu pois recebeu erradamente a chave-sinal (isto é shakesperiano); é, no mínimo, genial que a alma liberta da suicidada Diane voe para ser o anjo de Camilla; se é Camilla que sonha o episódio da escolha da protagonista do filme de Adam é natural que nome e foto não correspondam pois Camilla amnésica não sabe quem é Camilla; além disso, supondo que as histórias envolvendo Adam são sonhadas (transfiguradas pelo sonho), quem melhor do que a noiva de Adam para ter tido conhecimento do que se passou com o lançamento do filme e a sua vida pessoal; quando das profundezas da memória, Camilla verbaliza o primeiro nome ele é "Diane" e orientada pelo seu anjo, visita (de facto?) a casa de Diane onde se depara com o cadáver que se confunde com um cadáver dela própria (de novo o jogo de espelhos); ainda orientada pelo seu anjo, temendo ainda mais pela vida ao ver-se associada aquele cadáver (e o mais que na sua memória profunda lhe lembrasse que tinha sido vítima de uma tentativa de assassinato), Camilla disfarça-se de... Diane (Genial!). Mas Camilla continua amnésica e sem as ferramentas suficientes para entender o sentido de tudo isto. É então que é acometida por uma necessidade vital de ir ao Silêncio de neon azul. Mulher e anjo correm (na realidade?) para este estranho teatro onde se encena a Grande Revelação em fumos azuis. "Não há banda" mas sim uma fita gravada ao som da qual os actores (todos nós) "sincronizam"; não há nada de novo, nem lugar ao improviso, apenas ajuste efémero ao som há muito gravado, até a profundíssima paixão da Llorona pré-existia e pos-existe a ela, desfalecida, e no fim, apenas o vácuo do silêncio. Da lição de Silêncio, Camilla e Anjo recebem metaforicamente o cubo azul de que necessita(m) para a revelação pessoal. Correm para casa (e é aqui que encontro a principal "prova" de que este sonho é de Camilla, pois imediatamente antes da revelação, ou seja, a abertura do cubo com a chave respectiva, o Anjo desaparece (desvanece-se?). Já não tem cabimento na verdade de Camilla. É Camilla que abre o Cubo. Para onde foi Camilla?Amerika
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(mailto:ccarreira@gmail.com)

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