Por JBM | Domingo, 01 Agosto , 2010, 16:25



Toy Story 3 é amargo e impiedoso. Arremessa-nos cruelmente contra o passado, rasga-nos o peito e arranca-nos o coração. E o pior é que faz tudo isso com o nosso consentimento e da forma mais honesta possível.

No longínquo ano da graça de 1995, estreava nas salas norte-americanas um filme que viria a marcar uma nova era no cinema de animação. O primeiro Toy Story foi um pequeno prodígio animado, um buddy movie à maneira, que enaltecia o valor da amizade e da imaginação. Mas no meio de tantas cores garridas e gags divertidos, começava a formar-se uma ideia negra que viria a crescer e a contaminar o resto do franchise: o medo do abandono e da inutilidade. Woody viu na chegada de Buzz - e na consequente ameaça de substituição - o primeiro indício do fim de uma era (a metáfora perfeita da mudança de paradigma e da substituição dos heróis: o cowboy deu lugar ao astronauta). Nessa altura foi fácil aliviar a tensão e dar um final feliz à coisa. Afinal de contas, Andy ainda era uma criança e os brinquedos ainda tinham muito anos de brincadeiras pela frente.

No entanto a ideia persistiu e acabou por ganhar uma outra dimensão (mais evidente, mais cruel) em Toy Story 2. Jesse, a simpática cowgirl, protagoniza o momento mais dramático da saga (até então!) com a canção When she loved me. Estávamos perante uma inevitabilidade: as crianças cresciam e os brinquedos ficavam na mesma. Era uma realidade contra a qual Woody, Buzz e os amigos não podiam lutar. No entanto, e mais uma vez, a Pixar resolveu adiar a questão. Andy continuava a ser um petiz. Havia que aproveitar até ao fim...

Mas chegámos a 2010 e era impossível continuar a adiar o inevitável. Toy Story 3 não está com rodeios e desde o início demostra que está aqui para arrombar o nosso baú das recordações. A magnífica sequência inicial, plasmada da sequência inicial do primeiro filme, é abruptamente interrompida por uma elipse que nos transporta até aos dias de hoje onde os brinquedos planeam intricadas operações "militares" apenas para que o seu dono repare que eles ainda existem. O primeiro de muitos murros no estômago que nos vão deixar completamente atordoados.

Toy Story 3 está recheado de grandes personagens com personalidades entranháveis, com as respectivas taras e manias. Talvez por isso, seja tão fácil criar um argumento emocionalmente tão denso e poderoso, que nos leva a duvidar e a temer pela vida dos "nossos amigos" (o último terço do filme é a melhor lição de storytelling clássico que podem ter no que vai de ano).

Claro que tem os habituais gags patetas e uma paleta de cores primárias invejável, capaz de agradar aos mais petizes. No entanto, o verdadeiro público de Toy Story 3 não são as crianças. Sou eu, és tu, é esse gajo ali sentado do teu lado. São todos aqueles que um dia construiram universos imaginários com a ajuda de pequenos amigos de plástico e que olham para esses tempos com o olhar cansado e cinzento do presente.

Não existem filmes perfeitos, mas felizmente existe a Pixar.

 

| Publicado em Rascunho.net


Anónimo a 2 de Agosto de 2010 às 02:55
Já vi e... UAU!

Pixar simplesmente não consegue desiludir.

Penso que pode começar a ser regra.
Espero que nunca chegue a excepção.

Purple_Potato a 3 de Agosto de 2010 às 01:25
As minhas glândulas lacrimejais funcionaram neste filme xD.

:') Enfim, vou voltar a rever os anteriores e rezar para que chegue o DVD edição especial deste belissimo video para poder ver e rever e rever e rever e rever e rever...

Bruno a 1 de Novembro de 2010 às 20:54
Sometimes you look back and think about what you've seen. What have you won, lost and enjoy... an hole profusion of feelings came across you in that precise moment. who are we? We're no more than an individual lost in time... If your're an adult when you see Toy Story 3 you're able to experience diferent degrees of nostalgia. You'll see how people grow old and stick together like a family should do... but this is not enough. this is a movie that portrays what life should be all about, friendship, love, joy, sharing and dreaming... but life is hard. Life is the bear that looks funny, smells funny but hides the truth behind this funny aperance. Life is that, full of people that play games and are no more than a puppet of a world full of greed that keeps going through time just like Emile Durkheim stated... SOciety is above the individual, it controls him. So that's it... You will smile, laugh and cry during this film but in the end... well, in the end all will be the same just like before you enter the movie theater.
Bruno Tomaz (peço desculpa pelos erros em inglês e porque n escrever em português.. foi isto que me saiu quando vi o filme e escrevi nessa língua..)


Segue-nos
Procurar
Pesquisa personalizada


Rubricas






Sobre o autor
  • Facebook
    Encontra-me por aqui.
  • Twitter
    Segue-me aqui.
  • Google +
    Também ando por aqui.
  • Contacto
    jbmartinz[at]gmail.com

comentários recentes
Muito obrigado. Ainda bem que gostaste do texto. A...
LOLque lembranças... Mas as minhas tinham de ser d...
Disseste grandes verdades na tua critica (sobretud...
eh pá... Só posso dizer que lamento por ti. A minh...
Tenho de dizer que quando estava a ver o filme só ...
Posts mais comentados
arquivos
2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


2006:

 J F M A M J J A S O N D


2005:

 J F M A M J J A S O N D


2004:

 J F M A M J J A S O N D


2003:

 J F M A M J J A S O N D


Meta
 
 
 
 
 
 
web tracker