Por JBM | Quinta-feira, 02 Setembro , 2010, 01:05


Reza a lenda que quando perguntaram à Angelina Jolie se estava interessada em ser uma Bond Girl ela terá respondido «Não, eu quero ser Bond». Como Hollywood costuma ser cortês para com quem dá dinheiro a ganhar à indústria, cedo se começou a pensar numa forma de satisfazer esse desejo. A solução passou então por Salt, um thriller de espionagem que Tom Cruise recusou protagonizar por ser demasiado parecido a Mission Impossible.

Mas Salt não é Bond e não o é por culpa de um erro estrutural crasso do argumentista Kurt Wimmer. Sim, o argumento tem mais buracos que as estradas nacionais e as leis da física são violadas de uma maneira que faria Newton atirar-se de cabeça contra uma macieira. Mas tudo isso seria desculpável se o filme conseguisse cumprir os mínimos que são exigidos a um filme de acção: entreter e criar empatia com o público.

Ora pensemos em James Bond. Todos os filmes de Bond têm um protagonista que acompanhamos, acarinhamos e conhecemos. A história desenrola-se segundo o seu ponto de vista. Durante a maior parte da narrativa sabemos quando ele mente, sabemos o que ele sabe, e desconhecemos o que ele desconhece. O mesmo acontece na saga Bourne e nos Mission Impossible. Podem existir excepções em determinados momentos do enredo mas nunca desde o início do filme. É uma regra elementar para qualquer filme de acção que se preze.

Por estranho que pareça, em Salt acompanhamos a história pelo ponto de vista dos supostos antagonistas. Passamos o filme sem saber quais as verdadeiras intenções da protagonista, o que impede a criação de qualquer vínculo emocional com o personagem. Obviamente que se não nos importamos com a sobrevivência do personagem principal, por mais explosões e cenas de acção magistralmente coreografadas que nos mandem para cima, o filme acaba por não nos interessar.

Sem essa ligação directa ao coração dos espectadores, Salt não é mais do que um filme de espionagem banal e espafalhatoso que leva demasiado a sério os clichés que minam o argumento.

Ninguém duvida que Angelina possa de facto fazer frente a James Bond (com este filme só vem demonstrar que actualmente é das poucas actrizes com estofo para levar às costas um filme de acção tipicamente masculino), mas ainda não é desta que consegue destronar o rei dos agentes secretos. Esperamos ansiosamente por uma próxima oportunidade.

 

| Publicado em Rascunho.net


T-666 a 2 de Setembro de 2010 às 02:09
Já que já vi que meteste o poster do Skyline, não reparei no trailer. Aqui está:

http://www.youtube.com/watch?v=ZQ8sYRI8dPg&fmt=22

Bruno Duarte a 2 de Setembro de 2010 às 09:36
Permite-me discordar, mas acho que é esse mesmo factor de desconhecimento relativamente às motivações aumenta o interesse pelo que estamos a ver .... afinal de contas o Homem é curioso por natureza.

Gostei bastante do filme.

Abraço.

Andre Silva a 2 de Setembro de 2010 às 09:59
Eu também gostei bastante.

Acção do princípio ao fim, e a curiosidade de saber o que se estava a passar realmente, sem saber nunca com certezas de que lado ela está.

Ok, as leis da física não são totalmente respeitadas, mas isso parece-me pouco relevante neste caso.

Já agora, quais são os erros assim tão graves do argumento?

Cumprimentos!

JBM a 2 de Setembro de 2010 às 10:21
Mas os buracos do argumento não são graves!! Eu disse que seriam perfeitamente desculpáveis se não fosse o outro problema - esse sim grave - que apontei.

João Pimentel a 2 de Setembro de 2010 às 10:07
Fico a pensar que não percebeu o filme , ou que estava distraido com qualquer coisa enquanto do seu visionamento.

Se fala que há falhas no argumento, pois tudo o resto é possivel graças à tecnologia, era importante dar alguns exemplos sobre essas falhas... será que os filmes do Bond não tem fahas de argumento ? ou então os "Missões impossiveis" são isentos de falhas de argumento ?!...

JBM a 2 de Setembro de 2010 às 10:20
Viva. Nas críticas tento evitar referências directas. É uma questão de respeito por quem ainda não viu o filme. Mas seja como for, eu disse que os buracos no argumento não são o problema. Obviamente que num filme deste género são desculpáveis (sim, os Bond e os Missões Impossíveis também tem falhas. E muitas). O problema que apontei para ter gostado menos de Salt é outro.

Alex a 2 de Setembro de 2010 às 15:54
Eu achei o argumento atrevido, na linha do Unthinkable " (com o Samuel L. Jackson ). No entanto, ao contrario do Unthinkable ", talvez por não ter explorado tão profundamente os piores medos dos americanos, conseguiu distribuição mainstream nos EUA.

Claro que a anormalidade do desrespeito por varias leis, nomeadamente as da física , já se tornou moda nos filmes de acção de Hollywood, e este não é excepção.

A minha opinião é que o argumentista demarcou-se francamente de fazer uma historia de uma bond feminina; se era essa a intenção, falhou redondamente. Por outro lado, acho que mudou o Jason Bourne de sexo, adicionando-lhe uma ambiguidade que julgo intencional, pois durante grande parte do filme não sabemos bem de que lado Salt está, chegando mesmo a ficar revoltados com algumas das decisões dela.
É de facto uma personagem demasiado parecida com Jason Bourne, e penso que isso não será muito benefico.

Pedro a 3 de Setembro de 2010 às 03:24
Mais cliché que isto é impossível: "...que leva demasiado a sério os clichés que minam o argumento".

Esta frase sim é um cliché normalmente usada por quem não tem mais argumentos para sustentar o insustentável.

Jbelchior a 3 de Setembro de 2010 às 15:07
Caro JBM:

Tenho seguido com agrado o seu blog. Não são muitos os espaços bem pensados sobre cinema neste nosso cantinho. Deixa-me, assim, congratulá-lo…

Quanto ao SALT, efectivamente, concordo completamente. É muito difícil estabelecer qualquer relação de empatia com alguém que nos “mente” de modo tão descarado. No final apenas me lembrava do NEXT, com o Nicholas Cage, em que esta opção de defraudamento do espectador foi utilizada ad nauseum.
E mais do que os buracos do argumento, são as crateras na psique dos personagens que mais chamam a atenção.
Não tenho absolutamente nada contra “cinema pipoca” mas, tal como as pipocas, gosto que seja bem feito…

Abraços…

JBM a 4 de Setembro de 2010 às 01:31
Muito obrigado! :) Ora nem mais, esse pensamento sobre pipocas resumiu tudo. Pipocas sim, estragadas é que não!

Ricardo Fernandes a 14 de Setembro de 2010 às 17:21
De acordo! Acho que resumiste bem o filme. Vê-se, é engraçado e distraí, mas não é nada de especial. Abraço!

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